
Autoatendimento
O serviço que divide opinião entre vantagens e desvantagens em Fortaleza
Pagar passagem com dinheiro em mãos ou pedir informação sobre o trajeto ao cobrador são costumes que os fortalezenses estão tendo de deixar. Acostumados com a presença dos cobradores nos ônibus, agora os cidadãos que fazem uso dos coletivos estão em processo de adaptação ao sistema adotado na capital cearense desde novembro de 2018.

Linha 606 - José Walter / BR 116 Av. N com serviço de autoatendimento na Av. 13 de Maio
O autoatendimento consiste basicamente na substituição dos servidores que recebem as passagens no interior dos coletivos pelo atendimento completamente eletrônico do serviço. Agora, com esse sistema, os usuários deverão passar pela catraca apenas portando bilhete único, carteira de estudante, bilhete eletrônico ou afins.
A recarga dos cartões eletrônicos é feita nos terminais, shoppings, supermercados, bancas de revista e nas farmácias Pague Menos, podendo também ser feita online através do aplicativo Meu Ônibus por meio da seção "recarga online".

Passageiros à espera de ônibus na Avenida da Universidade
Quanto às desvantagens do serviço, de longe, os mais diretamente afetados pela mudança do sistema foram os cobradores. Segundo o Sintro - Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Ceará - foram mais de mil demissões dessa classe de trabalhadores desde a implantação do autoatendimento; o chamado desemprego estrutural - que acontece quando a mão de obra humana é substituído pela tecnologia.
Quanto aos motoristas, estes alegam que a ausência da figura do cobrador os deixa mais sobrecarregados devido a falta de assistência que antes tinham dele, como nos momentos de receber um passageiro cadeirante, bem como de operar o ônibus em manobras.
Já para as usuários, dentre as maiores críticas às desvantagens do serviço está a dificuldade de utilizar o transporte público por parte de quem não possui cartão eletrônico, seja por não ter adquirido ainda ou seja por vir de fora de Fortaleza. Por conta disso, esses cidadãos - que segundo o Sindiônibus somam cerca 10% da população - acabam por esperar mais tempo nas paradas até que venha um ônibus que ainda disponha de um cobrador.
O Sindiônibus - Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará - reforça que a medida melhorou bastante tanto na velocidade de embarque e fluidez no trânsito como também no quesito segurança dos passageiros. A empresa alega que o fato de os usuários não precisarem mais contar moedas - e com isso se exporem - aliado ao fato de os ônibus não circularem mais com o valor das passagens nos cofres, promoveu uma diminuição no índice de assaltos aos coletivos, conforme indica o gráfico abaixo disponibilizado pela empresa.

Gráfico de índice de assaltos a coletivos em Fortaleza. O autoatendimento começou a funcionar em novembro de 2018.
Reprodução: Sindiônibus
Em um futuro em que a tecnologia avança, a tendência é a implantação do autoatendimento de forma integral em toda a frota da cidade, conforme a população for adquirindo os cartões eletrônicos. Portanto, entre vantagens e desvantagens, a alternativa agora é que os usuários desse transporte público se adaptem ao sistema que foi inspirado na cidade de Mato Grosso do Sul. Nesta cidade, de acordo com o Sindiônibus, reduziu-se drasticamente os números de assaltos aos coletivos depois da implantação do sistema, esperando-se que o mesmo aconteça em Fortaleza.
Priscila Silva
Priscila Silva
Reportagem
Apesar das vantagens defendidas pelos servidores, os usuários do autoatendimento dividem opiniões quanto aos pontos positivos e negativos do serviço que já funciona há quase um ano. Sobre isso, a repórter Laila Nobre foi ao Benfica - um dos bairros com pontos de embarque mais movimentados em Fortaleza - para ouvir o que os passageiros têm a dizer sobre isso.
Depoimentos
Relatos de quem usa o serviço de autoatendimento

Essa é Regina Cláudia. Trabalha como doméstica e faz uso do transporte público coletivo todos os dias. Enquanto esperava o ônibus da linha 088 Antônio Bezerra - Albert Sabin, na Avenida 13 de Maio, Regina concordou em falar sobre sua experiência enquanto passageira dos coletivos de Fortaleza e opinar sobre o serviço de autoatendimento.
Oportunamente, conseguimos capturar o sorriso de Cláudia durante a sua fala. Embora pareça que ela esteja contente com o rumo desse novo sistema, ao ser questionada, exclamou: "O serviço é péssimo, principalmente para as pessoas que vêm do interior da cidade".

Ivana é outra usuária e declarou sua insatisfação com o serviço. Já passou por alguns constrangimentos devido a falta de créditos no bilhete único. Certa vez, na linha 015 Conjunto Ceará - Antônio Bezerra, Ivana precisou da ajuda de terceiros para passar na catraca
Diferente das demais, a peruana Janete Guerrero fala sobre sua satisfação com o serviço e traz uma comparação com o serviço de transporte público do seu país de origem. Destaca a melhora na segurança pelo fato de não precisar andar com dinheiro e também valoriza o sentimento de empatia entre as pessoas, quando, por exemplo, uma ou outra não tem o cartão e recebe a ajuda de terceiros para seguir viagem.
Depoimentos
Relatos de quem usa o serviço de autoatendimento

Regina Cláudia
Essa é Regina Cláudia. Trabalha como doméstica e faz uso do transporte público coletivo todos os dias. Enquanto esperava o ônibus da linha 088 Antônio Bezerra - Albert Sabin, na Avenida 13 de Maio, Regina concordou em falar sobre sua experiência enquanto passageira dos coletivos de Fortaleza e opinar sobre o serviço de autoatendimento.
Oportunamente, conseguimos capturar o sorriso de Cláudia durante a sua fala. Embora pareça que ela esteja contente com o rumo desse novo sistema, ao ser questionada, exclamou: "O serviço é péssimo, principalmente para as pessoas que vêm do interior da cidade".

Ivana Araújo
Ivana é outra usuária e declarou sua insatisfação com o serviço. Já passou por alguns constrangimentos devido a falta de créditos no bilhete único. Certa vez, na linha 015 Conjunto Ceará - Antônio Bezerra, Ivana precisou da ajuda de terceiros para passar na catraca.
Diferente das demais, a peruana Janete Guerrero fala sobre sua satisfação com o serviço e traz uma comparação com o serviço de transporte público do seu país de origem. Destaca a melhora na segurança pelo fato de não precisar andar com dinheiro e também valoriza o sentimento de empatia entre as pessoas, quando, por exemplo, uma ou outra não tem o cartão e recebe a ajuda de terceiros para seguir viagem.
O estudante Gabriel Batista diz que as vantagens e desvantagens do autoatendimento são relativas. Para ele, que é jovem e se mantém sempre atualizado, é um serviço simples e que facilita a locomoção dos usuários na cidade de Fortaleza. Entretanto, para sua mãe, por exemplo, que não tem o costume de andar de ônibus e, certamente, não recebeu orientações ou explicações sobre o novo sistema, é um serviço que a prejudicou em certas ocasiões.
Luana Maciel
Crônica
Onde foi parar o cobrador?

Foi num dia de sábado de fevereiro, quando eu ia ao cinema, que me deparei com algo inusitado com o ônibus que peguei. Não havia um cobrador sentado naquela cadeirinha de tiras de plástico azul neon, por de trás da catraca. Olhei ao redor, confuso, procurando alguém com a mesma farda do motorista que pudesse me atender, mas não havia ninguém além dele, que seguia a viagem como se tudo estivesse tão normal quanto os dias de rotina.
Como não apareceu ninguém, me sentei na frente, naquelas cadeiras preferenciais elevadas, olhando a paisagem cotidiana. A cada parada, eu olhava para a porta de embarque, esperando que o cobrador entrasse, mas só subiam pessoas com a mesma reação que a minha e outras que simplesmente atravessavam a catraca com passcard, indiferentes. E após um pouco mais da metade do caminho para chegar ao terminal, onde eu faria a intercessão entre os ônibus, comecei a me perguntar: Onde diabos havia parado o cobrador?
Levantei do meu assento e me aproximei do motorista. Limpei aquele típico pigarro da garganta e perguntei:
– Com licença, mas esse ônibus não tem cobrador?
– Não, meu rapaz – respondeu ele sem tirar os olhos da estrada. – Esse é um ônibus de autoatendimento.
– Autoatendimento? Quê que é isso?
– Não tem cobrador, você passa o passcard ali no leitor pra liberar a catraca.
– Mas eu não tenho um passcard – eu disse sentindo um misto de confusão e ansiedade. Será que teria que descer do ônibus e seguir o resto da viagem andando?
– Se preocupa não, rapaz – respondeu o motorista, bem-humorado. – Eu paro pra ti na entrada do terminal e tu paga a viagem lá.
– Obrigado.
O ônibus chegou ao terminal e o motorista parou na entrada. Desci, agradecendo mais uma vez ao motorista, paguei a viagem na catraca de entrada e entrei enfim no terminal. Já na plataforma de embarque do próximo ônibus que eu iria pegar, me recordei dos meus tempos de criança, quando o embarque ainda era pela porta traseira e eu precisava passar por debaixo da catraca. E agora, já um homem feito (como diria minha vovó Mazé), eu presencio as mudanças que logo vão se tornar rotineiras e substituir as memórias que só serão revividas em conversas com tom de nostalgia, apenas como um pequeno detalhe do assunto principal.
São os tempos que passam e transformam. São as tecnologias que avançam e facilitam as vidas de alguns, enquanto dificulta as de outros. E elas continuam no mesmo ciclo que se repete: estranhar, aderir e acostumar. Mas por enquanto que o terceiro estágio não se enraizou na população geral de Fortaleza, vez ou outra, eu vejo alguém como eu naquele dia, com o mesmo olhar confuso, o sentimento de total estranheza e a mesma pergunta nas cabeças: Onde foi parar o cobrador?
Lucas Abreu
Galeria de Fotos
Quem somos
O Expresso Fortaleza é um portal de notícias dedicado a informar, de maneira clara, rápida e objetiva, sobre os acontecimentos mais relevantes do dia a dia dos moradores da capital cearense. Valorizamos um modelo de jornalismo participativo e difuso, que tenha compromisso com a veracidade dos fatos e a melhor compreensão da notícia por seus leitores.
Expediente

Priscila Silva
Estudante de Jornalismo
Produtora

Laila Nobre
Estudante de Jornalismo
Repórter

Luana Maciel
Estudante de Jornalismo
Editora

Lucas Abreu
Estudante de Jornalismo
Cronista












